DW – 15/02/2025
Diante do problema crônico do descarte de lixo no Brasil, alguns estados buscam reduzir os impactos dessa produção com soluções inovadoras e mais sustentáveis. Um dos pioneiros nessa iniciativa é o Ceará, que desde 2018 transforma lixo em gás. O biogás, como é chamado, é gerado pela decomposição da matéria orgânica dos resíduos domiciliares.
Enquanto o chorume, um líquido altamente corrosivo, exige tratamento específico, o biogás pode ser aproveitado na geração de energia. Ele pode ser utilizado diretamente em turbinas ou passar por um processo de purificação, onde são removidos CO2 e outros contaminantes, resultando no biometano – substituto do gás natural que pode ser utilizado em indústrias, comércios e veículos, sem necessidade de adaptações.
Em cidades cearenses, a produção já acontece em grande escala. “O biometano vem de uma produção de seis mil toneladas de material coletado diariamente em Fortaleza e Caucaia. A usina GNR capta e trata o biogás produzido no Aterro Municipal Oeste de Caucaia”, diz Hugo Nery, diretor-presidente da Marquise Ambiental e conselheiro da Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema).
A experiência do Ceará não é isolada. Outras cidades do país também investem nessa tecnologia para transformar lixo em energia limpa. No Rio de Janeiro, por exemplo, a cidade de Seropédica já tem seus rejeitos transformados em gás. Uma das responsáveis pelo processo é a companhia Gás Verde, que trata os resíduos do maior aterro sanitário da América do Sul, localizado na cidade.
Biogás como alternativa energética
A transformação do lixo em energia começa nos aterros sanitários, onde a matéria orgânica descartada passa por um processo de decomposição bacteriana em um ambiente sem oxigênio. O biogás, composto majoritariamente por metano, além de outros gases como nitrogênio e óxidos de enxofre e nitrogênio, se deriva desse processo. Esse gás pode ser aproveitado diretamente na geração de energia elétrica por meio da queima para movimentar turbinas.
Para que o biogás seja convertido em biometano, é necessário passar por um processo de purificação em usinas instaladas nos aterros. Nessa etapa, as moléculas são transformadas em um gás combustível pronto para uso. Esse biometano pode então ser injetado na rede de distribuição de gás natural ou utilizado como combustível.
É viável em todo Brasil?
A expansão do biogás e do biometano no Brasil, embora promissora, enfrenta desafios estruturais e regulatórios.
Estimativas da Associação Brasileira do Biogás e do Biometano (Abiogás) apontam que é possível produzir mais de 120 milhões de metros cúbicos de biometano por dia, volume suficiente para atender até 70% da demanda de diesel do país.
Porém, como destaca Nery, a adoção dessa tecnologia em outras cidades e centros urbanos depende da coleta eficiente e da separação adequada dos resíduos, da quantidade de matéria orgânica disponível e da infraestrutura e demanda para escoamento do gás. “O biometano requer um grande volume de resíduos orgânicos para que a produção seja viável e tenha escala”, explica.
Além disso, há obstáculos logísticos, especialmente pela concentração dos gasodutos no litoral. Isso torna mais desafiadora a implementação de usinas em cidades menores e no interior. “Cidades pequenas precisam se conectar aos aterros regionais já existentes ou em construção, pois soluções individuais seriam economicamente inviáveis”, diz Pedro Maranhão, presidente da Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema).
Fonte: DW