Veja – 31/03/2025
Substituir os combustíveis fósseis nos transportes por alternativas mais sustentáveis é um dos maiores desafios atuais no planeta. Sozinho, o setor responde por 20% da emissão de gases causadores de efeito estufa no mundo relacionada à energia. Mas, de 2011 a 2021, o consumo de energias renováveis no transporte global teve um avanço tímido, de 2,6% para 3,9% do total empregado para mover veículos. Enquanto bilionários como Elon Musk e montadoras chinesas tentam dar impulso aos veículos elétricos, a aposta do Brasil para a transição energética dá preferência aos biocombustíveis. Gerados a partir de biomassas como cana-de-açúcar e restos de alimentos, essas fontes energéticas prometem não só reduzir as emissões de CO2, mas também dar destino a uma série de resíduos poluentes.
Nesse cenário de transição energética global, o Brasil vem se posicionando como protagonista. “A ideia dos biocombustíveis é algo pelo qual nós, brasileiros, temos que lutar”, diz André Clark, presidente da Siemens Energy, que produz tecnologia e equipamentos de geração de energia. “Há uma guerra geopolítica, uma briga para ver quem pode declarar que uma fonte é mais verde ou menos verde.” Foi esse o palco da disputa nas reuniões do G20 no ano passado, quando o Brasil conseguiu, ao lado de outros países, situar o biocombustível como uma solução para combater a mudança climática.
Para fortalecer essa posição, o país deu um passo importante com a lei do Combustível do Futuro. Sancionada em outubro de 2024, ela prevê elevação da mistura de etanol à gasolina e de biodiesel ao diesel, além de criar programas para outros biocombustíveis, como biometano e combustíveis sustentáveis de aviação (SAF, na sigla em inglês). A nova legislação veio reforçar uma tradição já consolidada no país. “O setor de biocombustível é muito maduro e tradicional no Brasil. Já somos uma potência de biocombustível há muitas décadas”, afirma Camila Ramos, fundadora da Clean Energy Latin America, uma consultoria da área de energia renovável.
O principal exemplo dessa tradição é o etanol, o maior caso de sucesso brasileiro no setor. O país adiciona atualmente 27% de álcool à gasolina (índice que agora poderá chegar a 35%), é o segundo maior produtor de etanol no mundo e, de janeiro a novembro de 2024, consumiu 19,7 bilhões de litros do combustível. Nos próximos dez anos, o etanol deve receber mais da metade do 1 trilhão de reais em gastos previstos com biocombustíveis — até 2034, a oferta pode chegar a 48 bilhões de litros.
Esse potencial tem atraído gigantes do setor energético. A inglesa bp (antiga British Petroleum) já vinha apostando no etanol brasileiro desde 2008 por meio de uma sociedade. No ano passado, ela comprou a totalidade da empresa que mantinha com a americana Bunge, criando a bp bioenergy. “É uma iniciativa muito bem alinhada com a nossa estratégia de transição de uma empresa de óleo para uma empresa de energia integrada”, diz Andres Guevara, presidente da bp no Brasil. Com onze usinas, por aqui tem capacidade de produzir o equivalente a 51 000 barris diários de etanol, mais da metade da meta global da empresa de gerar 100 000 barris por dia de biocombustível até 2030.
Fonte: Veja